


Outro dia, deitei-me no sofá da sala para assistir ao telejornal. Aquela vinha sendo uma semana muito difícil. No trabalho a cada dia era um novo problema a resolver, metas inatingíveis a cumprir, funcionário doente, cliente reclamando do mau atendimento. Em casa, as crianças estavam mais briguentas e barulhentas que nunca e minha mulher, sempre cansada ou de mau humor.
Com tudo isso acontecendo, eu também fiquei cansado e rabugento. É, minha vida não estava sendo nada fácil. Tudo o que eu queria era ligar a TV e esquecer de tudo: das pessoas ao meu redor, dos meus problemas. O jornal, como sempre, começou contando as novidades do país. Mais problemas - pensei eu. Era o dólar, eram as CPIs, era a guerra no outro lado do mundo. Foi então que vi algo que me fez pensar.
O repórter caminhava por uma estrada de chão, rodeada de plantações de arroz arruinadas pela seca. Lá no fundo estava uma casinha simples, de madeira, com uma varanda e algumas pessoas que o observavam. Ele falava alguma coisa sobre os prejuízos que a falta de chuva estava causando para a agricultura no estado.
Percebi que ali ao fundo estava uma família como a minha – o pai, a mãe e dois filhos um pouco maiores que os meus, mas já com a pele amorenada pelo trabalho sob o sol. Pensei nos meus pequenos, que ainda não entendiam o significado da palavra trabalho, sabiam, sim, o que era brincar, ao contrário dos meninos da televisão.
A câmera se aproximou da família e pude ver o vestido roto e a face sofrida da mãe, com os cabelos presos e os filhos afetuosamente embrenhados entre suas pernas. Senti a força no olhar daquela mulher e o amor que envolvia a ela e a seus rebentos. Olhei, então para a minha esposa, não menos forte ou amorosa, mas, certamente, mais afortunada. Ao contrário da mãe da reportagem, ela podia ler lindas histórias aos filhos deitados em camas confortáveis, sem se preocupar com o que iriam comer no dia seguinte.
Então, por fim, o repórter se dirigiu ao pai, o chefe da família. Ao contrário de mim, ele era muito magro, também com a pele escurecida pelo sol, o rosto aparentando uma idade muito superior a que ele realmente teria. Era o responsável pelo seu próprio sustento, do êxito de seu trabalho é que dependia a renda do mês, ninguém lhe pagava um salário. Seus filhos o ajudavam no serviço, a esposa também. Não podia prover nem a eles nem a si as comodidades que eu tinha, como o sofá em que estava deitado assistindo à televisão.
O homem manifestou sua preocupação com a falta de chuvas, com a plantação que não sobreviveu, com a despensa e os bolsos vazios. Até que sentiu uma das crianças puxar-lhe o braço. Ele pegou-a no colo, olhou de volta para o repórter, abriu um sorriso tímido e disse: “Pelo menos a gente temos o amor e a união da família, isso é que deixa a gente feliz e dá força pra continuar na luta, né”. A profundidade daquela singela declaração me comoveu. Desliguei a televisão e me pus a chorar.